9 de dezembro de 2015

nunca confie em quem fizer a primeira acusação, ele é um lobisomem!


Lobisomem por uma Noite [Funbox Jogos]
One Night Werewolf, de Akihisa Okui [2012, 3-7 jogadores, 10 minutos]

pra quem me conhece, pode até parecer estranho que minha primeira postagem (e inauguração do blog) seja sobre um party game, e não sobre algum jogo bem estratégico e bem pesado, que costumam estar entre minhas preferências. mas, como bom jogador, gosto de jogar em qualquer momento, incluindo aqueles de festas e loucuras, com muitos amigos, conversas, bagunça e uma cervejinha (ou cachacinha ou vinhozinho ou...), momentos em que um Terra Mystica da vida não cairia bem, mas perfeitos para um bom e divertido party game - principalmente os de estratégia social.

recentemente comprei o Lobisomem por uma Noite e estreamos nesse clima de cervejinha e muita bagunça, jogando - e gritando - por cerca de 2 horas seguidas, dando uma pausa somente porque a cerveja tinha acabado e precisamos ir comprar mais. considerando que o jogo dura cerca de 10 minutos (ou seja, muitas partidas seguidas), acho que dá pra entender o quanto nos divertimos com ele.

a caixa da versão da Funbox.
tamanho ideal pra levar pra qualquer jogatina.

Lobisomem por uma Noite é um microgame constituído de apenas 8 cartas que tenta trazer o clima de uma partida de Werewolf/Lobisomem pra dentro de apenas 10 minutos e sem necessariamente precisar de uma grande quantidade de jogadores. pra quem não conhece, Werewolf é um jogo dos anos 80 em que os jogadores fazem o papel de aldeões de um vilarejo que está sendo atacado por lobisomens infiltrados entre eles. uma partida do jogo necessita de um 'narrador', que irá distribuir secretamente uma carta para cada jogador indicando qual o seu papel: aldeão ou lobisomem; em seguida acontece uma fase 'pré-jogo' em que os lobisomens se reconhecem (mediado pelo narrador, com os aldeões ficando de olhos fechados); seguindo, o jogo se constitui de várias rodadas com duas fases: noite, onde os lobisomens (enquanto os jogadores ficam de olhos fechados, novamente) escolhem uma vítima, e dia, que se inicia com a revelação de que a vítima escolhida foi morta por lobisomens (eliminando o jogador da partida) e segue com os demais debatendo sobre quem potencialmente é um lobisomem e, com isso, enviá-lo para a fogueira (que também será eliminado do jogo); o jogo continua com várias rodadas nesse mesmo esquema até que todos os lobisomens sejam mandados pra fogueira (em que a equipe dos aldeões vence) ou fique somente lobisomens vivos (e aí dá pra adivinhar quem vence).

é um jogo que não segue aquela lógica estratégica da maioria dos jogos, mas foca na interação/ manejo social, garantindo sua diversão nos momentos das discussões para decidir quem o grupo irá mandar pra fogueira, cheio de acusações e blefes que podem acabar com qualquer amizade (e, por isso mesmo, essa diversão acaba dependendo muito do grupo de jogadores, podendo render partidas chatíssimas com um grupo não tão entrosado ou 'enérgico'). os pontos negativos são que ele necessita de uma boa quantidade de jogadores para funcionar bem (eu diria 6, sem contar com o narrador) e há eliminação de (muitos) jogadores, o que pode causar desconforto visto que uma partida pode durar muito tempo.

como o próprio nome diz, Lobisomem por um Noite segue esse mesmo esquema de lobisomens versus aldeões num vilarejo, mas durante somente um noite, o que acaba por resolver os problemas de eliminação de jogador e partidas longas. o jogo é tão simples que dá pra explicar ele todo em algumas linhas:

dentre as cartas do jogo - dois lobisomens, um vidente, um ladrão fantasma e aldeões (a quantidade depende do número de jogadores) - é distribuída secretamente (não há narrador aqui) uma para cada jogador, indicando quem ele é, e outras duas são colocadas no centro da mesa com as faces viradas para baixo, ninguém sabendo o que elas são. após cada um olhar quem é, o jogo se inicia com a noite, em que todos os jogadores colocam sua respectiva carta na mesa, à sua frente, e fecham os olhos, seguindo, assim, em três turnos (em cada um, todos os jogadores irão, silenciosamente, contar até 10, avisando simultaneamente quando o tempo acabar): na primeira, o vidente abre os olhos e pode olhar uma carta de outro jogador ou as duas cartas no centro da mesa, voltando a fechar os olhos; depois, no mesmo esquema, os lobisomens abrem os olhos e se reconhecem; por fim, o ladrão fantasma abre os olhos e pode trocar sua carta pela carta de outro jogador (ele só pode olhar a carta trocada depois da troca). assim, a noite acaba e se inicia o dia, onde todos abrem os olhos e possuem 5 minutos (contados) para decidirem quem irão enviar para a fogueira. após os 5 minutos, todos votam ao mesmo tempo em quem enviar; o jogador com mais votos vai para fogueira - se for um lobisomem, os aldeões vencem (o vidente e ladrão fazem parte da equipe dos aldeões), caso contrário, a vitória é dos lobisomens. e aí você vai terminar a partida e querer começar imediatamente outra (torcendo para ser um lobisomem dessa vez). simples assim.

os quatro tipos de personagens do jogo.

pra se ter uma ideia de como o jogo funcionou bem quando o inauguramos, eu o levei à jogatina das sextas com os amigos, e um deles não queria jogar (tava com 'preguiça' de aprender um novo jogo e preferia ficar bebendo e assistindo a gente jogar), mas aí eu disse que era um jogo muito simples e insisti até que ele aceitou. quase duas horas depois, eu já estava cansado de jogar e queria parar, mas esse mesmo amigo não deixava: "que nada, nielison! pega logo tua carta e vamo começar!". os outros jogos que levei pra essa mesma jogatina ficaram esquecidas, e o Lobisomem por uma Noite garantiu gritaria, acusações, enganações e muita muita risada pra noite inteira (principalmente quando já estávamos todos bêbados e não confiávamos mais em ninguém).

o jogo não fica só na bagunça, cada um acusando o outro e o pau comendo solto. é necessário habilidade por parte dos jogadores sim, porém não habilidade estratégica, mas social. é muito importante saber blefar e usar o que é dito pelos outros como arma para a acusação - principalmente se você for um lobisomem. fica bastante interessante quando há dois lobisomens em jogo e eles conseguem se entrosar durante as discussões, convencendo todos os outros de que o lobisomem é outro jogador. e aí cabe ao vidente, se ele conseguiu descobrir um dos lobisomens, 'provar' quem é o verdadeiro inimigo sem revelar sua natureza (o jogo não especifica que o vidente ou o ladrão fantasma devem esconder quem são, mas aconselho usar a mesma regra do Werewolf: ladrões e videntes também não são aceitos no vilarejo, portanto vão pra fogueira se se revelarem). numa das partidas, um dos lobisomens percebeu que o vidente estava fora do jogo (a carta de vidente ficou no centro da mesa) e interpretou de um jeito que deu a entender à todos que ele próprio era o vidente, enganando todo mundo. outra situação bem legal é quando acontece do ladrão trocar a carta com o lobisomem, e aí o antigo lobisomem se torna o ladrão sem saber (os jogadores não podem mais olhar suas cartas depois que se inicia a noite), jogando sem a consciência de que está do lado dos aldeões. aliás, esse tipo de situação é uma das melhores novidades do Lobisomem por uma Noite (não existe no Werewolf), pois além da paranóia dos aldeões em descobrir quem são os lobisomens, há também a dúvida destes em saber se ainda são, de fato, lobisomens.

mas repito: é um jogo que o nível de diversão dependerá muito do traquejo social dos jogadores, podendo ser uma péssima experiência se você jogar com o grupo errado. quem já jogou o próprio Werewolf ou o The Resistance (lançado no brasil pela Galápagos Jogos) terá uma boa ideia de como esse tipo de jogo funciona e, se gostou deles, irá se divertir bastante com o Lobisomem por uma Noite. some isso ao fato de que custa muito barato e possui partidas bem rápidas e teremos um jogo perfeito para qualquer festa com uma jogatina.

assim como em Werewolf - e ao contrário do The Resistance (pelo menos em certo grau) - eu diria que o único defeito do Lobisomem por uma Noite é que no início do dia a discussão começará com acusações totalmente às cegas, pois ninguém (principalmente os aldeões) terá ideia de quem pode ser o lobisomem - com exceção do vidente, se ele tiver a sorte de descobrir um deles, e, obviamente, dos próprios lobisomens. por isso mesmo, nosso grupo chegou à conclusão de que o jogador que começar acusando alguém é um lobisomem. estratégia certa! acabamos que, quando começava o dia, ficava todo mundo tenso, com medo de falar e ser mandando pra fogueira, enquanto o tempo passava e, no fim, a gente ia ter que decidir quem enviar pra fogueira.

uma crítica à Funbox é a ausência de um app que faça as contagens dos turnos durante a noite e do tempo do dia, pois o esquema de todos ficarem contando até 10 silenciosamente é muito chato e pode não funcionar às vezes. nos EUA foi lançado uma reedição do jogo junto com um app que faz justamente essas contagens. ou seja, a ideia já estava aí, bastava implementar por aqui (o que não seria nada difícil nem custoso).

falando nessa reedição, o jogo fez (e ainda faz) muito sucesso lá fora através da versão One Night Ultimate Werewolf, que é basicamente o mesmo jogo, mas com outros personagens além dos quatro mencionados, podendo comportar mais jogadores. o One Night Ultimate Werewolf já possui uma expansão igualmente bem sucedida e um outro jogo na mesma linha, One Night Ultimate Vampire, que adiciona, além das cartas, marcadores para cada personagem (podendo todos ser jogados em conjunto).

então se você acha que possui o grupo correto pra esse tipo de jogo - ou se já jogou um dos outros jogos mencionados e gostou - Lobisomem por um Noite é recomendadíssimo e garantia de diversão na certa (principalmente se considerarmos que ele não vai fazer mal ao seu bolso).

3 comentários:

Carlos André disse...

Curti muito o texto, deu para sentir a empolgação o que me fez ficar com mais vontade ainda de adquirir o jogo

Nielison Brito disse...

pois é, é muito divertido. e bem baratinho! não tem erro. =] testa o 'the resistance' também. é ainda mais legal, só que um pouquinho mais longo.

Wederson G. de Paula disse...

Jogue o TG Werewolf pelo Telegram.