15 de junho de 2016

eu vs alexander mackenzie (ou como parei de me preocupar e passei a gostar de jogatinas solo)


nunca gostei de jogatinas solo. meio que um preconceito mesmo. o que sempre me atraiu nos jogos de tabuleiro foi justamente a disputa intelectual (na maioria das vezes) entre mim e meus oponentes. a ideia de disputar contra uma "estratégia" predeterminada pelo próprio sistema do jogo simplesmente não me era atraente. sempre pensei que se fosse pra jogar sozinho, preferia jogar vídeo games ou resolver puzzles - ou então arrumar outra coisa pra fazer.

na verdade nem sempre foi assim. quando entrei no mundo dos jogos de mesa modernos, lá pelos idos de 2012, até me interessei pela ideia de jogar sozinho - inclusive porque, no início, as opções de pessoas com quem jogar eram bem menores que hoje. numa de minhas primeiras compras (bons tempos em que o dólar tava baixo e a receita quase nunca taxava), peguei o 'onirim', um pequeno jogo de cartas para até 2 pessoas, mas que foi desenvolvido para ser um jogo solo, principalmente. li as regras e fui testar. joguei duas partidas seguidas. até que me diverti, mas a experiência foi fria o suficiente para eu nunca mais voltar a joga-lo. não cheguei nem mesmo a testar as expansões que vem no jogo (tenho a primeira edição, que vem com 3 expansões - a versão atual vem com 7), e desde então ele ficou num canto esquecido da minha estante.

'onirim' e suas cartas com arte belíssima.
será que terá outra chance?
o jogo é interessante e gostei de experimentar aquele desafio (perdi na primeira partida e ganhei na segunda). mas, como disse, acho que a falta de um oponente humano tornou a experiência fria demais pra mim. além disso, o jogo exige que você esteja embaralhando as cartas constantemente - o que é bem chato nesse caso - e isso também pode ter influenciado no fato de eu não ter tido vontade de repetir aquela experiência. não sei ao certo, mas, enfim, desde então perdi completamente o interesse em jogatinas solo.

à medida que minha coleção foi aumentando, acabei adquirindo mais jogos que suportavam partidas com uma única pessoa, mas o desinteresse não mudou. o único jogo que tive vontade de testar no modo solo foi o 'neuroshima hex!' (lançado no brasil pela funbox jogos), mas justamente porque esse modo consistia em vários puzzles que a pessoa deveria resolver, não era o jogo em si. mesmo assim, nunca cheguei a encarar esses puzzles.

ouvi sempre muitos amigos comentando como eram legais os modos solo do 'la granja', 'agrícola', entre outros, mas a ideia de jogar e fazer uma pontuação para ser batida por você mesmo numa outra partida (ou ser comparada com alguma tabela de desempenho do próprio jogo) não me era nem um pouco tão atraente quanto jogar pra fazer uma pontuação maior que seus oponentes. sei que é assim com todo mundo, mas eu não tinha vontade nem de tentar.

porém, há poucas semanas, estava sozinho numa noite, tomando um vinho, e bateu uma vontade louca de jogar algum boardgame. pela hora, era impossível conseguir um oponente (minha esposa odeia jogar - a maior tristeza da minha vida - e meu filho tem apenas 3 meses de idade). mas ainda assim, eu queria muito jogar. resolvi tentar o 'andean abyss' (um ótimo wargame da fantástica série COIN) no modo solitário - por alguma razão, me pareceu interessante testar o tão elogiado (e dito desafiador) sistema solo do jogo. peguei a caixa, abri, folheei o manual de regras e percebi que não lembrava de muitos detalhes (aqueles inúmeros detalhes típicos de wargames). eu precisaria revisar as regras, mas uma partida do 'andean abyss' é longa demais (no mínimo umas 3 horas) pra eu começar aquele processo tão tarde da noite. desisti.

'andean abyss' e suas pecinhas de madeira que eu adoro tanto!
quase foi ele minha segunda jogatina solo.
mas aí (acho, inclusive, porque eu já estava no final da garrafa de vinho) continuei com essa vontade de jogar sozinho. podia ser qualquer jogo, o negócio era jogar de todo jeito! olhei minha coleção e resolvi testar o 'lewis & clark'. o fato de ser um race game, e não um jogo de pontos, foi o que definiu minha escolha. achei que seria mais legal vencer uma corrida contra o jogo do que simplesmente ver quantos pontos eu conseguiria fazer. pela segunda vez naquela noite, peguei uma caixa de jogo, abri, folheei o manual e... vamos lá! montei o tabuleiro, li o sistema para partidas solo e comecei minha corrida contra alexander mackenzie (o nome dado ao bot pelo próprio jogo).

e me diverti bastante!

o jogo propõe níveis de dificuldades para o modo solo que vai de 0 a 7. como já dominava as regras, quis começar num nível mediano, 3 ou 4. mas depois pensei que, já que estava passando pela experiência de jogar sozinha, essa experiência deveria ser no mínimo desafiadora. talvez 7 ou 6 fosse pretensioso demais pra quem estava jogando naquele sistema pela primeira vez, então decidi ir no nível 5.

nos três primeiros turnos achei a coisa toda bem sem graça. pra quem conhece o 'lewis & clark', mas não lembra como funciona o modo solo, não muda quase nada: você realiza suas ações normalmente, e aí, após cada ação, o scout que representa alexander mackenzie avança um espaço na trilha - se ele atingir a linha de chegada (fort clatsop) antes de você montar acampamento lá, derrota! então foi justamente essa coisa de realizar ação e mover alexander mackenzie repetitivamente que me pareceu bem enfadonho. pensei em desistir, mas já havia começado, vamos terminar!

porém, depois da primeira vez que montei acampamento (acho que no quarto turno) e vi que o inimigo estava muito mais à frente que eu, percebi que aquela experiência ia ser bastante desafiadora. como a maioria dos euro, 'lewis & clark' é um jogo de otimização de ações - e do jeito que estava a coisa, eu iria precisar otimizar muito mais minhas ações do que normalmente fiz nas outras partidas (contra oponentes humanos). foi quando comecei a raciocinar muito mais sobre a estratégia do jogo, o que eu deveria fazer para avançar meu scout o máximo possível e montar acampamento realizando o mínimo de ações possíveis (e isso exige que você tenha poucas cartas e poucos índios, mesmo necessitando de mais para poder ser mais eficiente - e é aí que está a grande sacada do 'lewis & clark'). me peguei pensando acerca de minhas jogadas - a atual e as futuras - muito mais que em todas as outras vezes que joguei o jogo. alexander mackenzie estava avançando rápido demais e eu precisava jogar muito melhor se quisesse vencer aquela partida...

andamento da minha primeira partida solo de 'lewis & clark'
o que mais me atrai nos boardgames é justamente esse desafio mental em conseguir atingir determinada meta, seja definindo uma estratégia vitoriosa ou respondendo às jogadas dos oponentes com jogadas ainda melhores. naquele momento, jogando 'lewis & clark' sozinho, me vi numa espécie de puzzle que a configuração do jogo, naquele momento, estava me propondo e em que eu deveria usar o sistema do jogo da mesma maneira que usaria se estivesse jogando contra alguém. e alguém muito bom! e, mesmo não tendo um oponente para atrapalhar minhas ações (usando os espaços que eu queria usar ou pegando as cartas que eu gostaria de comprar), me senti jogando o 'lewis & clark' da maneira que já tinha jogado antes, mas num nível de dificuldade muito alto. e isso foi divertidíssimo!

no final das contas, depois de muito pensar minhas ações e queimar um bocado de neurônio (e com mais de 2 horas de jogo), consegui vencer alexander mackenzie quando ele ainda estava a três espaços de distância do fort clatsop - ou seja, se estivesse no nível de dificuldade 7 ainda conseguiria vencer, mas por um turno. foi uma vitória muito gratificante!

conseguir montar acampamento em fort clatsop antes de
alxander mackenzie chegar lá!
e a experiência foi legal o suficiente para eu mudar completamente meu conceito sobre jogatinas solo e querer repetir a dose mais vezes (agora não vejo a hora de jogar o 'andean abyss' sozinho). é óbvio que ainda vou preferir jogar contra pessoas de verdade (dependendo da pessoa, claro =P), mas, a partir de agora, sempre que bater aquela vontade de jogar algo e não tiver como conseguir um oponente, não exitarei em tentar o modo solo de algum boardgame.

não sei se gostei tanto de jogar 'lewis & clark' sozinho por ser um race game e pelo fato das regras quase não mudarem no modo solo (apesar, como disse, da falta de um oponente pra atrapalhar minhas ações). ainda não me atrai tanto a ideia de jogar sozinho pra ver quantos pontos consigo fazer - mas agora estou muito mais inclinado a passar por essa experiência que antes. ainda mais: depois disso, quero testar o modo solo de todos os jogos da minha coleção.

enfim, me diverti bastante. aos que guardam um certo preconceito contra jogatinas solo, sem nunca ter experimento antes, numa noite em que estiver com vontade de jogar, mas não tem ninguém pra jogar com você: abra um bom vinho, beba algumas taças e comece a olhar pros jogos da sua coleção!

(inicialmente eu iria também comentar sobre algumas estratégias no 'lewis & clark' e outras coisas que percebi nessa jogatina solo, mas o post acabou ficando muito mais longo do que imaginei... então fica para o próximo post!)

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