3 de agosto de 2017

Pré-Conceito: Terraforming Mars


Mês passado iniciei a coluna Dissecando com a proposto de fazer análises mais aprofundadas de alguns jogos, seus sistemas e suas possíveis estratégias. Obviamente, para selecionar um jogo para essa análise, deve ser algum com o qual eu já tenha bastante familiaridade, com muitas partidas na bagagem. Ao mesmo tempo, às vezes sinto vontade de tecer comentários sobre jogos recém-conhecidos, expressar uma opinião mais superficial e, de uma certa maneira, pré-conceituosa, visto que ainda conheço pouco do jogo sobre o qual estaria comentando. Então, já que comecei com esse negócio de "coluna", por que não criar uma voltada para isso? Daí nasceu o Pré-Conceito! Dessa maneira, tenha em mente que a coluna trará opiniões e comentários a partir de uma ou duas partidas, de modo que algumas considerações podem partir de situações específicas dessas partidas e que alguns aspectos do ponto de vista apresentado podem vir a mudar com o tempo.

Terraforming Mars, lançado recentemente no Brasil pela Meeple BR, é o hype do momento, dentre os jogos euros, já tendo chegado ao 7º lugar no ranking do BGG e em 6º no Ludopedia. Nele, cada jogador representará grandes corporações num esforço conjunto para tornar Marte habitável, terraformando-o, e ser a maior de todas, obviamente.

Eu já estava bem interessado pelo jogo. Apesar de não ser de acompanhar hypes, sou grande fã de euros mais pesados, e como o Terraforming Mars estava sendo bem elogiado pelos que possuem um gosto parecido com o meu, impossível não querer experimenta-lo. Duas coisas me chamaram atenção nele: primeiro, o fato de ser um euro com uma alocação de tiles bem presente, algo que não vejo tanto em jogos mais pesados, então já apela para minha curiosidade; segundo, por ter lido que possui um uso forte de cartas que propiciam a formação de combos - e eu adoro jogo com formação de combos.

Porém, o jogo é mais básico do que imaginei, não sendo tão pesado assim. Além disso, a alocação de tile é uma consequência, não uma mecânica que direciona a ação dos jogadores, como eu havia pensado (e como acontece em Carcassonne, por exemplo). Mas já adianto que isso não se tornou um problema, visto que gostei bastante do jogo e já está na lista de desejos.

Bem, quando fui conhecer o jogo, já durante a explicação (que não foi dada por mim), a assimilação foi bem tranquila, pois o jogo é realmente simples. Apesar de muitas opções de ações, a maioria é bem parecida uma com a outra, e nem sempre você pode valer-se de todas elas, pois tudo nesse jogo depende de dinheiro (chamado de megacréditos). É tudo bem tematizado, então fica muito intuitivo, facilitando bastante a compreensão de seus elementos.

Terraforming Mars é quase um cardgame, pois a grande maioria das coisas que você vai fazer será usando cartas. Quase todas as ações que você pode fazer com cartas, as básicas, são também possíveis de ser realizadas como uma ação direta, gastando-se os respectivos megacréditos pra isso. Mas a mesma jogada sairá mais barata através de certas cartas, que ainda poderão te proporcionar outras bonificações. Ou seja, a sacada aqui é saber gerenciar bem as suas cartas de acordo com alguma estratégia pré-definida. E isso é muito legal, pois muitas cartas interagem entre si ou se complementam, e é aí onde o jogador pode começar a formar os combos. Logo na minha mão inicial, tive duas cartas que estavam relacionadas diretamente com o recurso energia, uma para produzi-lo e outra para troca-lo por megacrédito, possibilitando que eu já seguisse uma linha estratégica. Daí, já de início, esse aspecto relacionado a combos ficou bem evidente e o jogo caiu logo no meu gosto.

Apesar de uma boa quantidade de cartas passarem pela mão dos jogadores (todo turno você compra quatro cartas, apesar de isso não significar que você ficará com elas), o Terraforming Mars tem bastante cartas, e você só terá acesso a parte delas. Com isso, o jogador terá boas possibilidades de aproveitar cartas que interajam entre si, mas, ao mesmo tempo, ele se verá estimulado a ir atrás de oportunidades de adquirir novas cartas pra conseguir otimizar seus combos e, consequentemente, sua estratégia. Uma boa sacada, que destaca esse aspecto do jogo, é que as quatros cartas compradas todo turno não são suas ainda, de modo que você terá que pagar megacréditos para cada uma que quiser manter na sua mão. Essa é a parte crucial do jogo, porque a grande maioria das cartas são potencialmente boas para você (lembre-se que as jogadas realizadas através de cartas são sempre melhores que se forem realizadas através de uma ação direta), então você vai querer ficar com todas. Porém, isso significa gastar dinheiro, que é o recurso universal. Ou seja, se o jogador não souber realizar esse gerenciamento eficientemente, ele pode ficar com muitas (e boas) cartas na mão, mas não ter megacréditos para usa-las - ao mesmo tempo, se resolver juntar dinheiro, é capaz de lhe faltar cartas e ficar com opções limitadas (e mais caras) de ações. É nesse momento de decisão de quais cartas comprar/ficar que o jogo vai, principalmente, exigir do raciocínio dos jogadores, que necessitarão queimar alguns nerônios prevendo suas próximas ações e fazendo as contas de quantos megacréditos vão precisar pra fazer tudo que desejam.

Outra coisa interessante é o fato de que as cartas azuis são permanentes que te dão opções de ações extras para você realizar durante seu turno, sendo que a maior parte delas (se não todas) são ações diferentes das básicas, ou seja, que não podem ser realizadas de outra forma. Isso, além de abrir o leque de jogadas disponíveis, vai tornando o jogo de cada um diferenciado, acentuando os caminhos estratégicos e aumentando o aspecto de "poderes variáveis" do jogo (que já existe desde o início da partida, pois cada corporação possui características diferentes, o que é uma coisa que também me atrai muito em boardgames).

São por essas razões que eu digo que Terraforming Mars é quase um cardgame, pois são as cartas que irão orientar suas ações e, consequentemente, seu jogo. Saber quais comprar e quando usar irá, certamente, definir quem será o vencedor da partida. É claro que, considerando a compra de cartas, há um elemento aleatório no jogo, trazendo o fator sorte à tona. Mas, estou quase certo, o jogo exigirá muito mais da lógica estratégica do jogador do que da sua sorte. Porém, entra uma possível crítica nesse ponto: Terraforming Mars parece apresentar poucas opções para mitigar esse "fator sorte" existente, visto que o acesso a novas cartas é bem limitado e que possíveis cartas inúteis não trará nenhuma forma alternativa de aproveitamento. Não é algo que torne o jogo dependente de sorte e chegue a prejudicar um jogador (pelo menos não aparentou numa primeira partida), até porque, como dito, a grande maioria das cartas serão melhores que as opções básicas de ações, então elas acabam sendo proveitosas para o jogador de alguma maneira, mesmo que não se encaixem na estratégia traçada.

É muito interessante também a maneira como foi implementado a condição de fim de jogo, pois depende de três parâmetros globais, compartilhado por todos os jogadores: nível de oxigênio, temperatura e quantidade de oceanos em Marte. Tais parâmetros podem ser aumentados usando-se ações e, claro, cartas, e quando todos chegarem ao máximo, o jogo se encerrará. O negócio é que sempre que o jogador aumenta um desses parâmetros, ele aumenta também seu Índice de Terraformação, que significa ganho de pontos e de produção de megacréditos. Esses dois fatores unidos trazem um aspecto curioso ao jogo, porque dá um certo controle do tempo da partida aos jogadores, mas ao mesmo tempo garante que ela não se estenda muito, visto que alguém sempre estará subindo um dos parâmetros para se beneficiar disso. Junto com as cartas e seus combos, esse elemento dos parâmetros globais é o ponto alto do jogo.

Como todo bom euro, Terraforming Mars possui pouca interação. Devido ao fato da alocação de tiles depender principalmente das cartas (as ações que permitem o jogador colocar um tile diretamente são as mais caras do jogo), então ela não estará tão presente, diminuindo as situações de disputa pelos melhores lugares. Mas quando o jogo vai avançando, as possibilidades de alocação de tiles vão aumentando e ficando mais acessíveis, então começa a ficar mais presente essa questão da interação, o que é outra coisa que sempre me agrada.

A coisa dos marcos e dos prêmios também é legal, mas sinto que são daqueles elementos incluídos no jogo só pra aumentar as opções de ações/pontuação. Não chega a ficar deslocado, tornando-se algo deselegante, mas também não acrescenta muito ao jogo. Apesar disso, não deixa de ser algo positivo, pois, no mínimo, trás um aspecto de disputa/corrida entre os jogadores.

Um aspecto negativo é que ele proporciona momentos em que o jogo fica completamente parado e, também, com possibilidade de bastante downtime. Falo especificamente da fase de compra de cartas, visto que, além do tempo gasto para ler e entender o que cada carta faz (isso, obviamente, diminui à medida que a pessoa se familiariza com o jogo), cada jogador certamente passará um momento analisando qual(is) ele vai escolher pra ficar na mão. Não chega a ser algo que atrapalhe o andamento do jogo, mas todo esse processo deixa a coisa toda menos fluida.

Mas o que realmente me incomodou foi um aspecto relacionado ao design dos componentes do jogo: a maneira de se acompanhar o nível de produção dos recursos nos tabuleiros individuais. São cubos que ficam "soltos" em cada um desses tracks (seis ao todo), de modo que qualquer batidinha na mesa, no próprio tabuleiro ou em qualquer outra coisa pode bagunçar tudo, pois as chances dos cubinhos que marcam esses níveis sair do lugar é muita alta. Como é tudo da mesma cor e muito perto um do outro, certamente haverão momentos em que você olhará pro seu jogo, verá um cubinho da sua cor vagando sem rumo e não fará a mínima ideia de onde ele estava. Isso é algo que deveria ser considerado durante a produção do jogo. (Mas, felizmente, pode ser resolvido com a aquisição de um dashboard.)

Creio ser todas as impressões iniciais que valem a pena ser compartilhadas. Terraforming Mars é um ótimo jogo e certamente entraria na coleção. Pode ser que partidas subsequentes mudem algumas opiniões aqui apresentadas, mas estou certo que ele continuará a ser um jogo que me agrada. Não vejo a hora de vê-lo na mesa novamente! =D

Não poderia faltar um registro da partida!

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