27 de março de 2018

Melhores de 2017 - Lançamentos no Brasil


Continuando com as listas dos melhores de 2017, vamos agora aos jogos que foram lançados aqui no Brasil, incluindo os que foram desenvolvidos por designers nacionais. Mas, antes, vale algumas observações.

Estas listas foram criadas, inicialmente, para minha participação no Prêmio Ludopedia desse ano, então resolvi dividi-las nas mesmas categorias do prêmio. Por essa razão, além de incluir minhas escolhas, vou aproveitar e fazer breves comentários que eu ache pertinente em relação aos indicados e vencedores.

Porém, como dito anteriormente, o número de jogatinas em 2017 caiu bastante, de modo que acabei conhecendo bem pouca coisa dentre os jogos que foram publicados aqui, principalmente jogos infantis e familiares. A sorte é que foram trazidas algumas coisas que eu já havia jogado em anos anteriores, senão seria impossível participar como jurado. Por essa razão, a maioria das categorias não chegaram nem a ter uma lista com minhas escolhas, enquanto noutras eu fiz um top 3 ou 5, dependendo da quantidade de jogos contemplados aos quais consegui ter acesso.

Outra falha minha está em relação aos jogos criados por desenvolvedores nacionais. Como dito em postagens anteriores, tenho pouco acesso a esses jogos, em parte por falta de interesse, mas principalmente porque meus grupos de jogatinas não costumam adquiri-los. Essa falta de interesse se dá porque a grande maioria dos jogos tupiniquins são mais leves, estilo família, o que normalmente não cai no meu interesse. Além disso, os mais pesados parecem ser “mais do mesmo”, com mecânicas utilizadas de maneira básica e sem maiores inovações. Claro, devo admitir que isso acaba sendo um pouco preconceituoso (ou pré-conceituoso), visto que estou “julgando” jogos que nem cheguei a testar.

Mas isso tem mudado, e cabe aqui algumas palavras sobre boardgames de designers nacionais.

Primeiramente, que também sou um aspirante a desenvolvedor de jogos, por isso, apesar de estar completamente parado, passei a ter contato direto e constante com diversos outros designers do Nordeste, acompanhando, inclusive, a nascimento, desenvolvimento e publicação de alguns deles. Isso, inevitavelmente, acaba modificando meu ponto de vista em relação ao cenário nacional. São muitos fatores envolvidos, e a coragem e disposição (inclusive financeira) dos nossos colegas brasileiros em criar e trazer novos jogos é, no mínimo, admirável. Mas isso é assunto para outro momento...

Segundo, talvez até como consequência desse convívio com outros desenvolvedores, o ano de 2017 trouxe muito jogo nacional que me chamou atenção, indo de encontro ao que acabei de dizer acima. Notadamente, o cenário de boardgames no Brasil evoluiu de maneira assustadora, com lançamentos e novas editoras aparecendo toda hora, mas percebi também uma evolução no que estamos produzindo e criando. Provavelmente, algo natural, mas que me surpreendeu e me deixou muito feliz. São muitos jogos que tenho curiosidade de conhecer, mais ainda não o fiz por pura falta de disponibilidade. Destaco alguns: Dwar7s: OutonoPit CrewEnchanted CubesOs Reinos de Drunagor; e Teseu.

Ah, e quem ainda não conferiu, dá uma olhada no post com os melhores jogos que conheci em 2017!

Sem mais delongas, vamos às listas:

LANÇAMENTOS – INFANTIL

Aqui, juntei as categorias geral e designer nacional em uma só, justamente porque, dentre todos os contemplados, tive a oportunidade de conhecer um único jogo: Animal Upon Animal, que foi o vencedor da categoria geral tanto para os jurados quanto para o voto popular. Merecidamente!

Comprei o jogo como o primeiro boardgame de meu filho, que, como ainda tem somente 2 anos de idade, ainda nem pode joga-lo. Mas o Animal Upon Animal acabou funcionando, para ele, como um brinquedo, já que seus animais de madeira são bastante coloridos e resistentes. Ele adora, e sempre que há uma jogatina lá em casa, chega na sala de jogos pedindo o jogo dele, “Esse! Esse!”, e fica brincando no chão enquanto os marmanjos brincam na mesa.

Mas não só por isso. O jogo também fez muito sucesso entre adultos, agradando muitos amigos que não são gamers. Semana passada uma amiga chegou a dizer que sempre que vai na minha casa tem que jogar uma partida de Animal Upon Animal. Então, se você quer algo com uma pegada mais infantil, mas que funciona para crianças de 0 a 99 anos, recomendo demais!

Por fim, acrescento que tenho muito interesse em adquirir o Dr. EurekaLeo e Fila Filo – Formigas na Teia (que, inclusive, achei que iria sair como vencedor no voto dos jurados), todos eles concorreram como indicados e são muito elogiados.

LANÇAMENTOS – FAMÍLIA (DESIGNER NACIONAL)

Nessa categoria, só cheguei a jogar o Scippio e o Azzelij. Scippio é um party game que não me agradou muito; apesar de ter garantido boas risadas, achei aleatório demais. Azzelij foi uma grata surpresa (bem como o número de votos que ele recebeu), mas deixarei pra falar dele adiante.

Em relação ao Prêmio Ludopedia, não houve surpresas entre os indicados nem para o vencedor. Todos foram jogos bastante comentados, e o Dwarv7s: Outono parece, realmente, ser o mais interessante de todos.

TOP 3 LANÇAMENTOS – FAMÍLIA

Para a categoria geral, já dá pra fazer uma lista!

Dentre os indicados para o Prêmio, temos dois clássicos (Alhambra e Dominion) e dois jogos bem recentes (Century: Rota das Especiarias e Kingdomino, que foi eleito o vencedor tanto entre os jurados quanto o pessoal), além de um único party game (Imagine). Parece ter sido justo, apesar de eu ter estranhado a ausência do Bärenpark e as poucas curtidas, relativamente falando, que o Fields of Green recebeu na categoria popular.

Não sou muito fã do Dominion (não me apedrejem!), pois acho-o básico demais, tendo praticamente um sistema de uma única mecânica. Tenho muita vontade de conhecer o Century, e cogito até em adquiri-lo. O Kingdomino não me interessou também por parecer ser simples demais (porém tenho curiosidade no Queendomino), mas considerando todos os comentários e hype que recebeu, creio que suas vitórias foram justas.

Como dito, joguei beeeem pouco dos jogos contemplados, mas consegui, ao menos, separar três que me agradaram:


03. Oceanos, de Antoine Bauza
(2016, 2-5 jogadores, 30-45 minutos)
[link BGG e Ludopedia]

Um jogo bem simples e bonito, meio set collection, meio tableau building, que, apesar de não ser muito meu estilo, garantiu meia hora de diversão. Há um pouco de estratégia e um certo grau de aleatoriedade (o que mais me incomoda em jogos família), que pode ser mitigada, mas também pode fazer a diferença. O mais legal, porém, é a maneira como o draft foi implementado. Vale a pena para fãs de Bauza e para quem curte jogos bem leves, coloridos e rápidos.

02. Azzelij, de Rodrigo Sampaio Rodriguez
(2017, 2-4 jogadores, 20-60 minutos)
[link BGG e Ludopedia]

Aqui temos a surpresa que mencionei anteriormente. Não posso dizer que, em termos de sistema, o Azzelij seja superior a outros jogos nessa categoria, já que seu design é simplório ao extremo. Porém, visto que trata-se de um jogo abstrato, isso, na verdade, se torna um ponto positivo.

E é como um abstrato puro que o Azzelij demonstra todas as suas qualidades. É basicamente um tile placement de formar padrões (muito comparado ao Gardens, que não conheço). Como dito, bem simples, mas que sempre oferece opções válidas de jogadas, trazendo profundidade ao jogo. Tem um quê de puzzle, mas como existe uma certa aleatoriedade, ele não se enquadra nessa categoria. Ademais, essa aleatoriedade é pequena e mitigável, podendo até fazer a diferença num turno específico, mas não chaga a influenciar na partida como um todo, já que todos os tiles serão usados (e aqui entra o aspecto puzzle). A sacada se torna em saber como melhor utilizar o que você tem na mão. Há bastante interação, dentro do que propõe, o que é sempre um ponto positivo para mim, tornando-se um jogo de confronto direto e, assim, funcionando bem para qualquer número de jogadores. Por fim, possui um tema genérico, que faz com que funcione para qualquer tipo de pessoa, seja ela uma criança, adulto ou idoso.

Ah, esqueci de dizer que fica lindo na mesa.

Eu já estava interessado em comprar algum abstrato com essa pegada de tema mais genérica, tipo o Sagrada ou Azul, justamente por ser mais acessível (minha mãe, por exemplo, jamais se interessaria por um jogo com tema medieval ou de pessoinhas coloridas). O Azzelij acabou me trazendo exatamente isso, então virou compra certa. Se esse é um estilo de jogo que você procura, vale a pena conhecer.

Apesar de não ter feito diferença na minha escolha, vale destacar a qualidade do material, tanto caixa quanto componentes, que é simplesmente incrível, principalmente se considerarmos que é um jogo produzido de forma independente. Posso dizer que é superior até a muito hype que circula por aí.

01. Alhambra, de Dirk Henn
(2003, 2-6 jjogadores, 45-60 minutos)
[link BGG e Ludopedia]

Por fim, o primeiro lugar não poderia deixar de ir para esse eterno clássico. Lembro que, quando fui comprar meu primeiro boardgame (lá pelos idos de 2012, quando ainda valia a pena importar), fiquei em dúvida entre o Carcassonne e o Alhambra, mas, por ser mais popular, escolhi o primeiro. E me arrependi profundamente! (É, não gosto do Carcassonne. Não me apedrejem de novo, por favor.)

Alhambra também é um tile placement (porém, aqui, o tableau é individual), mas que possui mais coisa além de puxar um tile e colocar na mesa. Os tiles são comprados num mercado comum a todos os jogadores, trazendo a interação do jogo. Existem tipos específicos de tiles, que vão pontuar por maioria para cada um, e um tipo de “dinheiro” para cada tile. Este é obtido numa pilha, também comum, aleatoriamente, o que acaba trazendo um quê de hand management para o jogo. Apesar de ter uma aleatoriedade que pode vir a prejudicar alguém, essa junção de elementos mecânicos cria uma engrenagem que torna o jogo mais estratégico, e é justamente o que curto em boardgames.

Clássico é clássico, e isso, por si só, já é um motivo para você conhecer esse jogo.

LANÇAMENTOS – EXPERT (DESIGNER NACIONAL)

Mais uma vez, não tenho muito o que comentar. Dentre os candidatos (somente cinco), apenas Teseu realmente chamou minha atenção, provavelmente até por ser o que mais parece com um euro, além dos constantes elogios que ando lendo por todas as partes.

Os Reinos de Drunagor saiu como o grande vencedor, o que acabou chamando minha atenção. Espero ter oportunidade de joga-lo em breve.

TOP 5 LANÇAMENTOS - EXPERT

Por fim, chegamos à categoria na qual posso fazer uma lista decente (top 5!). Dentre os lançamentos no Brasil, a grandíssima maioria do que conheci se encaixa aqui, além de ter muita coisa que eu já havia jogado em anos anteriores.

Em relação ao Prêmio, destaco a variedade de estilos dentre os indicados. Foram dois euros bem pesados e cheios de componentes e regras (Lisboa e Great Western Trail), um euro mais leve que é quase um cardgame (Terraforming Mars), outro que tem cara de 4x/wargame (Scythe), um cardgame bem simples para somente 2 jogadores (7 Wonders Duel) e um ameritrash estilo dungeon crawler (Mansions of Madness: Second Edition). Estranhei a ausência do um dos grandes hypes de 2017, o Clans of Caledonia, e do ótimo Mombasa (talvez por ter sido lançado bem no início do ano). Mas o páreo estava duro, com muitos outros jogos de peso e bastante populares que poderiam estar dentre os indicados facilmente: ViticultureThe Castles of BurgundyCavernaOrléansThrough the AgesTrajan; e Concordia; dentre outros.

O vencedor na categoria popular foi o Terraforming Mars, o que não é nenhuma novidade, visto que provavelmente foi o jogo mais comentado no Ludopedia e nas redes sociais durante o ano passado. Além de ser um prêmio merecido. Mas os jurados preferiram o Great Western Trail, provavelmente por ter um sistema mais complexo e inovador. Justíssimo.

Antes da minha lista, cabe algumas menções honrosas dentre os que joguei: Terraforming Mars; Le Havre; Lisboa; SuburbiaThe Manhattan Project.


05. série EXIT, de Inka Brand e Marcus Brand
[link BGG]

Nenhum jogo da série Exit é realmente melhor do que muitos que já foram citados, no sentido mais técnico, mas a experiência que ele traz, para quem é fissurado em puzzles, é fantástica. E eu sou fissurado em puzzles, fazendo com que ele, ao menos, entre na 5ª colocação.

Na verdade, quase não é um jogo de fato, mas uma série de enigmas para que os jogadores, cooperativamente, resolvam e consigam sair da sala em que estão confinados (que por enquanto, aqui no Brasil, pode ser uma cabana, um laboratório ou a tumba de um faraó). As regras existem, basicamente, para interligar os enigmas, atender a mecânica de verificação de acerto e, ao mesmo tempo, o tema. Porém, os puzzles, em sua maioria, são bem criativos e inteligentes, usando de elementos inesperados e obrigando todos a pensar fora da caixa (opa, uma dica!), de maneira igualmente criativa e inteligente.

Assim como jogos legacy, a intenção aqui não é a rejogabilidade, mas a experiência que o jogo propõe. Aliás, toda partida de qualquer boardgame é uma experiência por si só, então, considerando que raramente terei uma experiência tão completa e interessante numa única sessão (mesmo que eu não possa mais repeti-la), acho completamente válido. Ademais, a questão aqui não é somente a destruição de componentes (que nem é obrigatória, nesse caso), mas o fato de que, uma vez resolvidos os puzzles, não faz nenhum sentido voltar a eles. Se você é daqueles que tem pavor desse conceito, pule fora. Do contrário, corra atrás, principalmente se você for fã de enigmas.

04. Great Western Trail, de Alexander Pfister
(2016, 2-4 jogadores, 75-150 minutos)
[link BGG e Ludopedia]

A partir daqui temos somente jogos de grande qualidade, todos podendo figurar no top 10 de todos os tempos de qualquer fã de euros mais pesados.

Pfister, provavelmente o designer mais interessante do momento, nos traz, mais uma vez, um jogo original e bem gostoso de se jogar. Dessa vez cheio de elementos, mas com um sistema que traz aquela engrenagem que todo heavy gamer adora desvendar e entender. Destaco a mecânica de alocação de trabalhadores (na verdade nem sei se realmente se encaixa nessa categoria), implementada numa trilha cíclica de forma bem curiosa.

03. The Castles of Burgundy, de Stefan Feld
(2011, 2-4 jogadores, 30-90 minutos)
[link BGG e Ludopedia]

Outro grande clássico que talvez, junto com o Kingsburg, tenha tirado (ou diminuído) o grande preconceito contra dados que existia entre os eurogamers. Feld, com seus inúmeros tiles e formas de pontuar, nos traz mais um jogo que, apesar de complexo, é intuitivo e interessante o suficiente pra agradar até quem não é fã de jogos muito pesados.

02. Trajan, de Stefan Feld
(2011, 2-4 jogadores, 60-120 minutos)
[link BGG e Ludopedia]

Eis o Feld novamente, dessa vez com seu melhor jogo. Aqui, a reviravolta que Feld propõe se dá através da antiga mecânica da mancala, criando um puzzle hipnotizante a ser usado para realização das ações, que se dão através de diversos “mini-jogos”, todos interligando-se de maneira natural. Um multiplayer bem solitário, mas que se torna bastante gostoso de se jogar justamente pela maneira como a mancala foi implementada. Cheguei até a fazer um post dissecando o jogo.

01. Mombasa, de Alexander Pfister
(2015, 2-4 jogadores, 75-150 minutos)
[link BGG e Ludopedia]


Ainda não é certo, na minha cabeça, se esse jogo é realmente melhor que o Trajan, mas, ao menos nessa lista, ele fica em primeiro lugar basicamente por ter um nível de interação muito maior, o que, pra mim, é sempre um ponto positivo.

Pfister sendo novamente criativo ao pegar mecânicas básicas e usa-las de maneira bem inusitadas e curiosas. A mistura de controle de área com alocação de trabalhadores e mercado de ações é tão bem feita que o jogo nem parece conter tantas mecânicas, tornando-o bem mais simples do que parece. Mas a grande sacada está no uso das cartas, que servem como fontes de ação (card driven) com um quê de construção de deck (deck building), ação programada e gerenciamento de mão (hand management). É incrível como essa salada trouxe um mecanismo tão conciso e orgânico. Um jogo incrível!
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E com isso encerro minhas postagens com o que achei de melhor em 2017. Compartilhem suas escolhas e também comentem o que acharam do Prêmio Ludopedia desse ano! =D

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